segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Requião e a retórica da persuasão

Hoje meu dia foi aberto pela entrevista do governador do Paraná (triste para mim, paranaense), Roberto Requião, à revista Carta Capital. Não bastasse a simples imagem do governador já me causar náuseas, ele consegue piorar minha situação digestiva ao abrir a boca para falar. Agora o Requião cogita a possibilidade de disputar a presidência da República. rs. Se essas pretensões chegassem à realidade eu mudava de país. Porque se fosse provada tamanha falta de percepção e crítica nos meus conterrâneos, eu me sentiria envergonhada de fazer parte dessa população. Se bem que eu já posso pensar em começar a arrumar as malas, afinal, ele não foi apenas eleito como se manteve no poder por oito anos consecutivos no meu próprio estado.
Bom, vejamos então. O discurso do peemedebista começa com uma crítica ao Consenso de Washington. Diz que o momento da falência do neoliberalismo (não é o que parece) é propício para o início de políticas sociais sólidas e a retomada do desenvolvimento. Só não vi nenhuma ideia de como fazer isso.
Quando questionado a respeito do que o PMDB poderia oferecer de diferente ao Brasil, ele responde:
Um projeto de país. O que somos e o que pretendemos ser? Um mercado para o desfrute dos outros ou uma nação para os nossos? Existe alguma diferença essencial entre o empreendimento colonial açucareiro que os portugueses montaram no nordeste brasileiro e o nosso papel de produtores de commodities hoje? Mais ainda, que diferença isso fez quando os holandeses se apossaram dos engenhos e passaram a comandar o processo de produção? Isso alterou em um átomo a realidade de vida dos brasileiros? Um candidato do PMDB faria a diferença ao apresentar proposta de um projeto nacional, desvinculado dos interesses do capital financeiro, das grandes corporações transnacionais, desse capitalismo pantagruélico, devorador de vidas, de energia, de sonhos, de dignidade.
Lindo, hein. Com certeza essa conversinha deve convencer a alguns. Mas, cadê a realidade? Mercado para desfrute dos outros? Então quer dizer que o Sistema Financeiro Internacional só prejudica o Brasil? Isso quer dizer que era melhor na década de 90, quando ninguém investia aqui? E o IOF? Para que serve senão para manter o dinheiro aqui por mais tempo? Por que não melhorar as formas de segurar o capital ao invés de tratá-lo como o inimigo?
Capitalismo pantagruélico??? Agora o PMDB é mais socialista que o PT?! E o Lula, não tinha então um projeto nacional para o Brasil? Aliás, e o interesse nacional, quem é que está preocupado com ele? O Itamaraty, apenas? Nem ele? Quem disse que os brasileiros querem se fechar para o mundo? E de onde vem essa ideia de comparar o Brasil colonial com o Brasil-produtor-de-commodities de hoje? Por que não parar de tentar usar as manchetes de jornais que falam de economia(onde metade dos leitores nem entende realmente o que é bom e o que é ruim no meio de todos aqueles números e termos), e começar a falar a NOSSA língua?
O problema aqui é a velha história do "povo sem cultura = povo fácil de enganar". Povo sem cultura = povo que esquece das falcatruas do governo. Povo sem cultura = povo que perdoa corrupção. E nasce no meio da corrupção, e não tem uma escola pra mostrar outra dimensão. Porque povo malandro, esperto - povo que não é mané -, é corrupto. E cresce no meio da corrupção, pois não tem escola pra conhecer esporte. E é bandido. E é alheio às questões políticas que realmente importam. Povo bandido faz parceria com o governo. Que é para nenhum dos dois ser preso.
É por isso que o Requião não fala de educação. Porque o que ele quer é o que todo o mundo quer: grana. E para isso só é necessário uma retórica bem fundamentada em mentiras persuasivas. Um presidente, pelo menos no país onde eu um dia pretendo morar, tem que ter seriedade, caráter, cultura, e não ser mais um orador ganancioso. E esse país vai começar a existir por esse indigesto desistindo dessa ambição ridícula.
Leia a entrevista na íntegra:

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