Para quem já respondeu ou vai responder a enquete aqui do blog (não dói, gente, prometo!), deem uma lida no texto abaixo, publicado na Carta Capital. Cada um tem sua opinião, e muito do que ele disse eu concordo, mas achei bastante arrogante para um texto de opinião onde, a meu ver, se encontram alguns equívocos, como por exemplo os do parágrafo 5. Desde quando um filhinho de papai negro não vai usar as cotas no vestibular só para não dizer que é negro? Uma viagem. E outra, quem não se prepara MUITO BEM tem pouquíssima chance de entrar numa universidade pública. E essa preparação, a gente sabe, o governo não dá. Prova disso é a fortuna que a Positivo está recolhendo de rodinho. Os pobres TÊM sim de ser favorecidos também, se as cotas forem mesmo necessárias. Afinal, ninguém que pensa no futuro do país quer política de pão e circo; mas, nessas alturas do campeonato, antes um esboço de atitude que, se Deus quiser, incite reclamações por mais atitude, que as costas do governo. Enfim, depois discutimos se sim ou não às cotas... deixo vocês com o texto:

Somos racistas
Enquanto interessava às elites brasileiras que a negrada se esfolasse nos canaviais e, tempos depois, fosse relegada ao elevador de serviço, o conceito de raça era, por assim dizer, claríssimo no Brasil. Tudo que era ruim, cafona, sujo ou desbocado era “coisa de preto”. Nos anos 1970 e 1980, na Bahia, quando eu era menino grande, as mulheres negras só entravam nos clubes sociais de Salvador caso se sujeitassem a usar uniforme de babá. Duvido que isso tenha mudado muito por lá. Na cidade mais negra do país, na faculdade onde me formei, pública e federal, era possível contar a quantidade de estudantes e professores negros na palma de uma única mão.
Pois bem, bastou o governo Lula arriscar-se numa política de ações afirmativas para a high society tupiniquim berrar para o mundo que no Brasil não há racismo, a escrever que não somos racistas. Pior: a dizer que no Brasil, na verdade, não há negros.
Antes de continuar, é preciso dizer que muita gente boa, e de boa fé, acha que cota de negros nas universidades é um equívoco político e uma disfunção de política pública de inserção social. O melhor seria, dizem, que as cotas fossem para pobres de todas as raças. Bom, primeiro vamos combinar o seguinte: isso é uma falácia que os de boa fé replicam baseados num raciocínio perigosamente simplista. Na outra ponta, é um discurso adotado por quem tem vergonha de ter o próprio racismo exposto e colocado em discussão. Ninguém vê isso escrito em lugar nenhum, mas duvido que não tenha ouvido falar - no trabalho, na rua, em casa ou em mesas de bares - da tese do perigo do rebaixamento do nível acadêmico por conta da presença dos negros nos redutos antes destinados quase que exclusivamente aos brancos da classe média para cima – paradoxalmente, os bancos das universidades públicas.
Há duas razões essenciais que me fazem apoiar, sem restrições, as cotas exclusivamente para negros. A primeira delas, e mais simples de ser defendida, é a de que há um resgate histórico, sim, a ser feito em relação aos quatro milhões de negros escravizados no Brasil, entre os séculos XVI e XIX , e seus descendentes. A escravidão gerou um trauma social jamais sequer tocado pelo poder público, até que veio essa decisão, do governo do PT, de lançar mão de ações afirmativas relacionadas à questão racial brasileira – que existe e é seríssima. Essa preocupação tardia das elites e dos “formadores de opinião” (que não formam nada, muito menos opinião) com os pobres, justamente quando são os negros a entrar nas faculdades (e lá estão a tirar boas notas) é mais um traço da boçalidade com a qual os crimes sociais são minimizados pela hipocrisia nativa. Até porque há um outro programa de inserção universitária, o Prouni, que cumpre rigorosamente essa função. O que incomoda a essa gente não é a questão da pobreza, mas da negritude. Há contra os negros brasileiros um preconceito social, econômico, político e estético nunca superado. O sistema de cotas foi a primeira ação do Estado a enfrentar, de fato, essa situação. Por isso incomoda tanto.
A segunda razão que me leva a apoiar o sistema de cotas raciais é vinculado diretamente à nossa realidade política, cínica, nepotista e fisiológica. Caso consigam transformar a cota racial em cota “para pobres”, as transações eleitoreiras realizadas em torno dos bens públicos irão ganhar um novo componente. Porque, como se sabe, para fazer parte do sistema, é preciso se reconhecer como negro. É preciso dizer, na cara da autoridade: eu sou negro. Alguém consegue imaginar esses filhinhos de papai da caricata aristocracia nacional, mesmo os mulatinhos disfarçados, assumindo o papel de negro, formalmente? Nunca. Preferem a morte. Mas se a cota for para “pobres”, vai ter muito vagabundo botando roupa velha para se matricular. Basta fraudar o sistema burocrático e encher as faculdades públicas de falsos pobrezinhos. Ou de pobrezinhos de verdade, mas selecionados nas fileiras de cabos eleitorais. Ou pobrezinhos apadrinhados por reitores. Pobrezinhos brancos, de preferência.
Só um idiota não percebe a diferença entre ser pobre branco e pobre negro no Brasil. Ou como os negros são pressionados e adotam um discurso branco, assim que assumem melhores posições na escala social. Lembro do jogador Ronaldo, dito “Fenômeno”, ao comentar sobre as reações racistas das torcidas nos estádios europeus. Questionado sobre o tema, saiu-se com essa: “Eu, que sou branco, sofro com tamanha ignorância”. Fosse um perna-de-pau e tivesse que estudar, tenho dúvidas se essa seria a impressão que Ronaldo teria da própria cor, embora seja fácil compreender os fundamentos de tal raciocínio em um país onde o negro não se vê como elemento positivo, seja na televisão, seja na publicidade – muito menos nas universidades.
O fato é que somos um país cheio de racistas. Até eu, que sou branco, sou capaz de perceber.
Leandro Fortes.
Fonte: Carta Capital. Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4797. Acesso em: 15 ago. 2009.
Bom, concordo contigo que os pobres têm sim de ser favorecidos com as cotas. E também concordo com o que o autor escreveu no final do 5º parágrafo, onde o problema está em definir o que é ser pobre.
ResponderExcluirPortanto, na minha opinião, as cotas são necessárias para pessoas que não têm condições para bancarem um ensino particular de qualidade, devido à situação da educação básica no país, ou seja, há uma grande defasagem entre o ensinado nas escolas públicas e o que é cobrado nos vestibulares.
O ideal seria melhorar a qualidade do ensino público, porém esse é outro tema para discussões e dificilmente de se tornar realidade. Assim, vejo que um sistema com cotas para pessoas que vieram de escolas públicas seria uma boa alternativa. Mesmo acreditando que este também seria facilmente fraudado pelos “filhinhos de papai”.