terça-feira, 25 de agosto de 2009

O crédito como solução e dissolução do equilíbrio capitalista

Curitiba, 16 de junho de 2009.

Karl Marx (1818-1883) parecia prever o futuro quando escrevia O Capital, lá em 1867. O mecanismo social, ou seja, a concorrência entre “vários capitais”, explicado detalhadamente na obra, pode ter contribuído para a cavalaria capitalista ter-se tropeçado entre os cascos e chegado aonde se encontra hoje. Em outras palavras, a competição pode ter estimulado os portadores de capital – aqueles que, ainda de acordo com o filósofo, praticam a mais-valia e partilham do “instinto absoluto de enriquecimento” – a produzirem cada vez mais produtos diferentes, instigantes e descartáveis. Para que estes saíssem das prateleiras, no entanto, seria necessário, naturalmente, capital. Dinheiro este que, conforme dito, concentra-se majoritariamente nas mãos dos produtores (e no cofre do governo). Solução para o consumo? Cria-se crédito, através dos portadores do capital, para que os consumidores façam a economia girar e sejam felizes.
Mas, infelizmente, desta vez a conta foi alta demais. E nem mesmo a AIG, maior seguradora do mundo, conseguiu pagá-la. E veio a crise, e com ela a pressão sobre o governo do Estado que teoricamente a trouxe à tona. Entretanto, somente hoje, nove meses após a quebra do banco de investimentos Lehman Brothers, que iniciou a fase mais aguda da crise atual, conforme a Folha de São Paulo, é que Barack Obama e o secretário do Tesouro Timothy Geithner parecem ter encontrado uma saída eficiente para frear os desgovernados efeitos desta carroça que atropelou o globo.
A “gambiarra de um trilhão de dólares”, que não pode ser comparada à bem sucedida Conferência de Bretton Woods, principalmente pelo fato de o G20 não ser formado só por países desenvolvidos, tendo necessariamente que contar com a ajuda dos emergentes e, portanto, possuindo caráter provisório[1], agora dá espaço ao lançamento da “superagência”: um conjunto de regras e exigências que visam evitar a superexposição de instituições e do mercado aos derivativos, que ajudaram a aprofundar a crise atual.[2] A medida do Sr. Obama também reforçará o poder do Federal Reserve (Fed), o banco central norte americano, de olho na proteção dos consumidores e dos investidores através da regulação de cartões de crédito e outras modalidades de empréstimo, como nos detalha a reportagem da Folha.
Ainda na mesma edição do jornal encontramos o título “Agora, endividamento dos países ricos preocupa FMI”. O mesmo FMI que solicitou os estímulos na casa dos trilhões. Mas a ambiguidade não se encontra só nas medidas de salvação da economia. Ela se aprofunda tanto que chega até os consumidores finais. Estes, que, no tempo das vacas gordas, possuíam casas, carros e toda a sorte de material eletrônico, recebendo salários de US$ 1200 ao mês. Como? Crédito. O mesmo que fez a economia girar tanto a ponto de tirá-la de órbita. E que continua sendo necessário agora, para que ela volte ao normal.
Marx costumava dizer que a crise nada mais é do que um estado econômico passageiro onde se necessita reorganizar o sistema capitalista para que ele tenha a taxa de lucro novamente equilibrada, atraindo investimentos e empurrando a balança comercial de volta ao seu nível seguro. Talvez não fosse necessário, no entanto, que ele nos lembrasse de evitar o extremo do instinto do enriquecimento, que ativa os riscos de falência, donde só se sai aguardando uma atitude do governo, que pode não chegar tão forte e devastadora quanto a própria crise.

[1] GAMBIARRA global. Carta Capital. São Paulo, ano XV, no 540, p. 58-60, 8 abr. 2009.
[2] OBAMA reforça Fed e lança ‘superagência’. Folha de São Paulo. São Paulo, p. B7, 16 jun. 2009.

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